É comum pensarmos que o grande obstáculo para a conversão das pessoas
é a falta de provas. Imaginamos que, se Deus apenas rasgasse os céus,
enviasse fogo ou permitisse que um milagre inegável fosse registrado com
clareza, o mundo cairia de joelhos. O relato de Mateus 28, no entanto,
expõe o quanto essa ideia é ingênua e distante da realidade bíblica.
Pense nos guardas romanos. Eles sentiram a terra tremer. Viram um
anjo descer e remover a pedra. Ficaram como mortos diante do
sobrenatural. A evidência estava ali, irrefutável e ofuscante. E o que
eles fizeram com ela? Venderam-na por algumas moedas. Os principais
sacerdotes, por sua vez, diante do relato incontestável de soldados
neutros, não rasgaram suas vestes em arrependimento; abriram os cofres
para financiar uma narrativa falsa.
O problema do homem nunca foi a falta de evidências, mas a inimizade
do seu coração contra a soberania de Deus. A mente caída não busca a
verdade; ela busca justificativas para manter sua própria autonomia. Não
adianta tentar convencer o mundo apenas com apologética se o Espírito
não regenerar o coração.
Por outro lado, o texto nos revela algo igualmente desconcertante
sobre os próprios seguidores de Jesus. Lemos que, ao verem o Cristo
ressurreto no monte na Galileia, os discípulos o adoraram; “mas alguns
duvidaram”. O termo aqui não denota o ceticismo militante dos fariseus,
mas a pura hesitação de corações aturdidos. Eles estavam diante do Rei
vitorioso, mas a memória traumática da cruz, o medo das autoridades e a
incerteza do futuro ainda pesavam em seus ombros.
Sejamos francos: nós não somos muito diferentes. Adoramos
fervorosamente no Domingo, mas hesitamos na segunda-feira. Cremos na
ressurreição histórica, mas trememos diante da oposição no trabalho, na
zombaria secular ou nas crises que batem à porta de casa.
A beleza do evangelho, contudo, não está na nossa coragem inabalável,
mas na resposta de Jesus à nossa hesitação. Ele não os repreende por
tremerem. Ele se aproxima e declara o que realmente sustenta a igreja:
“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra”. A garantia da nossa
missão não repousa na nossa eloquência, nem na nossa capacidade de
blindar nossa fé contra qualquer questionamento, mas no fato histórico e
teológico de que Cristo governa sobre tudo e sobre todos.
Somos chamados a ir e fazer discípulos não porque somos imunes à
hesitação, mas porque o Senhor da aliança nos fez uma promessa firme:
Ele estará conosco todos os dias, até a consumação do século. Não
precisamos recorrer a estratégias desesperadas de marketing ou contenção
de danos, como os líderes religiosos do primeiro século. Precisamos
apenas da fidelidade ordinária: pregar a Palavra, administrar os
sacramentos e descansar na certeza de que o mesmo poder que ressuscitou
Jesus dentre os mortos é o que vivifica corações endurecidos hoje.


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