Quando ouvimos a palavra “tentação”, nossa imaginação, viciada em
dramas, corre logo para os grandes escândalos. Pensamos em José fugindo
da mulher de Potifar ou em Davi cobiçando Bate-Seba no banho. Imaginamos
que a tentação sempre chega com cheiro de enxofre, oferecendo crimes,
adultérios ou roubos. Mas o diabo é astuto, e a teologia nos ensina que
o buraco é mais embaixo. Na maioria das vezes, não somos tentados por
coisas más, mas por coisas boas.
Pense na primeira tentação de Jesus no deserto. O que Satanás
ofereceu? Pão. Comer é pecado? Claro que não. Jesus estava há quarenta
dias em jejum; ter fome era natural e saudável. O pecado não estava no
pão, mas na sugestão de obter esse pão fora da vontade do Pai, usando
atalhos, duvidando da provisão divina na hora da dor. É aqui que eu e
você caímos.
Dificilmente acordamos planejando assaltar um banco. Mas somos
tentados a idolatrar a segurança financeira (que é boa)
a ponto de vivermos ansiosos e amargurados. Somos tentados a focar tanto
no nosso ministério e vocação (que são bênçãos) que
negligenciamos nossa família ou nos enchemos de orgulho. Queremos que
nossos cônjuges mudem para melhor (o que é ótimo), mas pecamos quando
respondemos à demora deles com ira e impaciência. Como disse Dan
Doriani, quase toda tentação oferece algo intrinsecamente bom —
segurança, conforto, justiça — mas na hora errada, do jeito errado ou à
custa da obediência a Deus.
Jesus, o nosso Segundo Adão, enfrentou esse teste onde o primeiro
Adão falhou. Adão estava num jardim, de barriga cheia, cercado de
beleza, e desobedeceu. Jesus estava num deserto, faminto, cercado de
feras, e obedeceu. Ele recusou o atalho. Ele recusou transformar pedras
em pães para si mesmo, para que hoje pudesse ser o Pão da Vida para nós.
Ele recusou pular do templo para provar que Deus era com Ele, preferindo
provar o amor de Deus morrendo naquela cruz. Há uma ironia salvadora
aqui: Jesus teve fome para que fôssemos saciados. Ele foi tentado a
abandonar a cruz para que, permanecendo nela, pudesse perdoar as nossas
constantes quedas.
Portanto, nesta semana, quando o desejo apertar, lembre-se: o perigo
muitas vezes não mora no vício feio, mas no desejo legítimo que quer
ocupar o trono de Deus. Não tente vencer apenas com força de vontade.
Olhe para Cristo. Ele venceu no deserto para socorrer você nos seus
desertos diários. Ele escolheu o caminho longo da obediência para que
nós tivéssemos a vida eterna. Se Ele esperou o tempo do Pai, nós também
podemos esperar.


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