É um fato inescapável da nossa condição deste lado da eternidade: nós
pecamos. Todos nós ainda tropeçamos diariamente. Mas há uma diferença
entre sairmos feridos de uma batalha contra a nossa carne e assinarmos
um tratado de paz com o inimigo. O problema é que, muitas vezes, ficamos
confortáveis demais com o nosso pessoal. Transformamos a teologia da
graça em um sofá, onde repousamos com tranquilidade diante das nossas
próprias iniquidades.
Como o nosso coração constrói essa trégua? Ele usa um verniz
teológico. A nossa carne sequestra a ortodoxia, instrumentaliza as
doutrinas da graça e sussurra: “Se a justificação é exclusivamente
pela fé, e a nossa salvação está eternamente garantida pela obra
consumada de Cristo, então podemos relaxar. Deus vai nos perdoar no
final das contas”. Isso é antinomismo. É o uso da justificação como
salvo-conduto para a imoralidade. É o coração pecador maquiando a
rebelião com aparência de piedade.
O apóstolo Paulo já conhecia essa dinâmica. Em Romanos 6, ele
antecipa essa desculpa: “Permaneceremos no pecado, para que seja a
graça mais abundante? De modo nenhum!”. Nós não negociamos com o
invasor. O pecado já não é o dono da nossa casa. O seu domínio jurídico
foi aniquilado. Mas ele continua operando como um terrorista infiltrado,
fazendo emboscadas diárias nos nossos afetos. Quando o nosso descanso se
torna um ídolo intocável e explodimos de ira ao sermos interrompidos, ou
quando a aprovação humana vira o nosso deus e mentimos para manter o
status, estamos cedendo ao invasor.
Como rompemos essa trégua e voltamos para o campo de batalha? A
libertação não ocorre quando olhamos para a parede e repetimos mantras
de força de vontade: “nós não vamos mais pecar”. A nossa mente
é uma fábrica contínua de ídolos, e a força moral humana é patética
contra as paixões da carne. A vitória não começa no
imperativo (a ordem do que devemos fazer), mas no
indicativo (a constatação do que Cristo já consumou por
nós). Antes de tentarmos matar o pecado, precisamos considerar o fato
objetivo de que nós já morremos para ele. Pela nossa união mística com
Cristo, a morte dEle liquidou a nossa dívida; a ressurreição dEle nos
transferiu para uma esfera de vida radicalmente nova. O vínculo foi
quebrado. O contrato caducou. Nós não devemos absolutamente nada à nossa
velha natureza.
Voltar a pecar deliberadamente e apaziguar a consciência com a ideia
de que “Deus entende” é agir como escravos alforriados a preço de sangue
que imploram ao antigo feitor para serem acorrentados novamente. A
verdadeira graça não apenas apaga o nosso histórico de erros; ela é um
poder reinante. Ela nos educa e nos capacita a dizer “não” à
impiedade.
Cristão, não entregue as suas armas — os seus olhos, a sua língua, o
seu tempo — nas mãos de um inimigo que já foi destronado. Quando a
tentação exigir a sua obediência e o seu coração tentar justificar o
erro com má teologia, não olhe para a sua própria resiliência. Olhe para
a cruz vazia e para o túmulo aberto, até que a glória da nossa união com
Cristo faça o pecado parecer a podridão que ele realmente é. Rompamos o
tratado de paz. A guerra diária contra a carne é exaustiva, mas lutamos
certos de que o Rei já venceu.


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